Saiba dessa: esse louco tem nome. É o diretor francês Michel Gondry, um sujeitinho magrinho e branquelo, típico francês ruivinho de cabelo bagunçado, com aquele olho esbugalhado e pernas cruzadas numa cadeira de um café. Vendo um cara assim na rua jamais seria possível imaginar a psicodelia criativa de sua mente. Nada de julgar livro pela capa! Nascido em 1963 em Versailles, França, a cidade do palácio do rei Luís XIV, o diretor começou a carreira como pintor e inventor – taí uma pista para sua inventividade prática evidente em suas cenas.
Na juventude estudou numa escola em Paris onde pôde desenvolver suas idéias gráficas e montar uma banda pop, o “Oui-Oui”. A banda lançou um par de álbuns até cindir por desconhecidas razões em 1992. Baterista da banda, o ruivo despertou para gravar os clipes esquisitos do grupo, baseado em imagens da infância e a década de 60. Asteróide que voou com um foguete. Literalmente não parou mais de dar asas à imaginação.
Junção química entre criatividade e simplicidade, esse cientista maluco amarrou barbantes nos dedos de Björk para enquanto ela tocasse piano, tintas de uma cor para cada nota esparramassem num cilindro giratório, formando figuras num mosaico absurdo.
Num clipe doideira do Beck, projeta-se na parede de um apartamento limpinho uma galera pirada bagunçando e sujando como se estivessem lá de verdade. A sensação é estranha e chocante.
Depois é claro que os grandes nomes da música queriam essa mente brilhante nos seus clipes mais que originais. A lista é malha fina: Rolling Stones, Beck, Radiohead, Paul McCartney, Foo Fighters, Devendra Banhart, The Vines, Kylie Minogue, entre outros monstros sagrados da cena musical. Se colocarmos de lado os clipes de qualidade insuperável, Gondry é o mais premiado diretor de propaganda do mundo: é obra de arte seus trabalhos para Motorola, Levi’s (lembra da camisinha no bolso?), Air France, etc. Mas não se interrompe aí: o cara é diretor de cinema.
O repertório inclui uma produção desde a década de 90: curtas-metragens raros como “One Day” (2001)e “La Letre” (1998).
Seus longas também não têm um fácil abecedário. É sempre coisa dentro da coisa, metalinguagem infinita como um espelho frente a outro - um amontoado de idéias explosivas espalhadas em duas horas de charadas ao espectador. A cabeça sai pulsante do cinema – e nem sempre satisfeita com a resposta. Nesse entrelaçado de lampejos, nada mais combinaria tanto quanto pegar um roteiro de Charlie Kaufman – o gênio atormentado dos roteiristas de Hollywood, escritor do complexo cult “Quero ser John Malkovich”. A parceria começou em 2001, quando lançaram “A Natureza Quase Humana”, ficção que ficou fora do circuito comercial e do sucesso.
O chicote estalou mesmo quando esses dois cabeçudos inventaram a repicada história de “Brilho Eterno de Uma Mente Sem Lembranças” (2004), filme desmiolado que só os espertos e atentos captam a mensagem enigmática.
É de fato preciso estar antenado para se sintonizar com o caminho de suas idéias. Sempre utilizando uma belíssima fotografia colorida completada pelas fantasias malucas das personagens e os objetos de cena surreais (cama de casal na praia?), é marcante sua relação entre fantasia de criança, cola, papel, tesoura, capa de superman e muita carga emocional de adulto: pessoas fracassadas, derrotadas pelo peso da realidade. Essa contradição faz o assunto pesado ser tratado com sublime leveza e atmosfera onírica.
Em 2006 lança o filme “Sonhando Acordado” com Gael Garcia Bernal, do qual mistura outra vez sonho e realidade, surrealismo com lógica, e o próprio personagem vive numa linha delicada entre o concreto e seu inconsciente. E o fator sempre presente em seus filmes: a busca pelo mundo, a busca de como se encaixar no sistema. Pena completa: o filme não foi lançado no Brasil, nem em DVD.
Alvo de ensaios literais, no livro “A Ciência do Sonho – a imaginação sem fim de Michel Gondry”, de Marcelo Rezende (Alameda Editorial), Gondry cabe como uma luva nessa conclusão: uma originalidade que “está no modo como escolhe e se apropria de um imenso repertório e imprime seu nome sobre ele: o cineasta cria uma tela na qual alguma coisa está realmente acontecendo, algo que excita a mente”.
LINKS:
SITE GRINGO DO FILME
SITE OFICAL DO DIRETOR (ainda em construção)
ENTREVISTA PUBLICADA NA FOLHA DE S.PAULO EM JANEIRO
FÃ BLOG
CINEPOP - "REBOBINE, POR FAVOR"
E-PIPOCA - "REBOBINE, POR FAVOR"
REVISTA CINÉTICA - "SONHANDO ACORDADO"
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